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Bolívia – Escalada em gelo – Cordilheira Real – P.N.Condoriri

Nesta página você encontrará todas as informações do Curso de Escalada em Gelo, realizado na Bolívia – Cordilheira Real no Parque Nacional do Condoriri de 1 a 12 de setembro de 1999. O curso foi realizado pelo instrutor Carlos Escobar da agência boliviana Nuevos Horizontes e com suporte de uma agência brasileira.

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Confira a galeria de fotos dessa viagem


O curso teve duração de 12 dias, sendo: 2 de viagem (ida e volta), 3 de aclimatação (La paz, Lago Titicaca e ruínas de Tiwanaku) e 7 do curso propriamente dito. Não foi necessária nenhuma experiência anterior em escalada ou gelo, pois o curso é básico – começando desde os principais nós, utilização de equipamento de escalada em gelo até as técnicas mais avançadas. É aconselhável, porém, um bom preparo físico, pois o trabalho em altitude (acima dos 4.600m) exige bastante do organismo.

O nosso grupo em Tiwanaku

O grupo, da esquerda para a direita: Eu, Renê (guia), o casal Veridiana e Jan, Cláudio, e o Léo (abaixado). De uma certa forma o grupo estava bem homogênio com relação a experiências anteriores em alta montanha e um preparo físico adequado. A única exceção foi a Veridiana que estava em sua primeira experiência outdoor, inclusive era a primeira vez que estava acampando! E o mais impressionante ainda é que ela se saiu muitíssimo bem superando todas as dificuldades impostas pela natureza. Os demais integrantes do grupo foram os guias Carlos e Renê (seu irmão), e Cláudio o cozinheiro.

La Paz

La Paz é a capital mais alta do mundo, situada a 3600 m é uma cidade que sofre com as conseqüências de sua posição geográfica. Localizada no altiplano e no fundo de um canyon tem características como clima seco, baixas temperaturas, ar rarefeito e ausência de vegetação. As construções de uma forma geral não possuem muitas cores o que só é compensado pelos trajes coloridos das Cholas, mulheres que vivem do comércio ambulante nas ruas da cidade. O comércio é muito abundante na região central e é possível encontrar de tudo nas calçadas.

A Bolívia é muito rica em artesanato e é possível encontrar os mais diversos artefatos, principalmente de lã. Tenha muito cuidado com a alimentação, pois a higiene não é nada boa nas ruas. Outro problema grave de La Paz é a água, que devido ao excesso de minérios no solo torna-se muito pesada e com gosto ruim, podendo causar transtornos aos turistas mais sensíveis.

A aclimatação

Os três dias de aclimatação são livres para que cada um decida o que fazer, mas o Carlos recomenda alguns passeios opcionais que favorecem a adaptação a altitude. Entramos em acordo com o grupo e fechamos uma pacote por US$100 que compreendia: um dia de visita às ruínas de Tiwanaku e dois dias em Copacabana, sendo um dia de trekking na Isla del Sol. No pacote estava tudo incluso: transporte, as 3 refeições do dia e estadia.

No caminho para Copacabana passamos por locais muito interessantes, dentre eles um lago onde é possível passear em um barco de totora, uma espécie de junco, com o qual eram feitas as embarcações. Além desse uso a totora ainda é utilizada para alimentação, construção, confecção de tecidos, dentre outras. Uma fato que me chamou a atenção é a condição de vida dos campesinos, famílias que moram no campo numa condição quase de miséria, pois o solo não é generoso permitindo praticamente apenas o cultivo de batata e milho.

A aclimatação é o processo pelo qual o organismo se adapta as condições de altitude e por conseqüência a sensível falta de oxigênio. Existem basicamente duas formas de se aclimatar:

  1. Ficar exposto a altitudes menores por tempos prolongados e então subir e repetir o processo;
  2. Subir gradativamente e atingir altitudes superiores, regressando para dormir em altitudes inferiores;

O segundo é o mais utilizado, pois reduz o tempo necessário para aclimatação, o que é importante numa viagem. E foi esse método que utilizamos indo até a Isla del Sol, no lago Titicaca para o exercício de aclimatação. Na ilha, atingimos 4400m e já deu para sentir os efeitos da altitude. Com passos lentos e constantes fomos nos adaptando a nova realidade. O visual da trilha é muito bonito, principalmente a vista do lago que surpreende com suas dimensões (233 x 97 km) e pelos diversos tons de azul.

Na noite seguinte dormimos em Copacabana, a maior cidade nas margens do lago. Pela manhã fizemos um excelente exercício – subir o calvário da cidade. O curioso do calvário é que nos seus 14 pontos de parada para oração, nós parávamos era para a respiração voltar ao normal.

No restante da manhã caminhamos pela cidade fotografando toda sua vida e suas pessoas. Muitas Cholas com suas vestes coloridas vendendo de tudo na praça. Após o almoço voltamos para La Paz para os preparativos finais do curso.

O curso

Depois da aclimatação na Isla del Sol e Copacabana retornamos para La Paz ao final do dia e no início da noite fomos para um depósito provar os equipamentos que utilizaríamos durante todo o curso. Muito cuidado foi tomado para decidir qual o tamanho da bota, pois ela nos acompanharia por toda a semana seguinte. Após todos os detalhes resolvidos retornamos para nossa última noite de conforto no mesmo hotel Señorial Monteiro.

Na manhã seguinte completamos a carga da Toyota com nossas mochilas, pois a mesma já trazia todo o equipamento de cozinha além da alimentação para os próximos 8 dias. Partimos do hotel cerca de 9:30h rumo ao Parque Nacional do Condoriri na Cordilheira Real num belo dia de sol. No caminho paramos num pequeno povoado onde Cláudio, nosso cozinheiro reside. Enquanto ele prepara mais algumas “tralhas” que iriam decorar o teto de nossa Toyota me afastei um pouco do grupo para algumas fotos, dentre elas a segunda da página – Lhama com Cordilheira Real ao fundo.

Neste mesmo povoado fotografei algumas crianças num estado de fazer dó. Todas sempre sujas e com as bochechas queimadas pelo sol forte em UV destas altitudes, mas sempre com um sorriso no rosto para os escassos visitantes.

Cerca de duas horas mais tarde deixamos o asfalto e entramos numa estrada de chão que serpenteava pelas casas dos campesinos. Apesar das boas condições da estrada levamos um grande susto ao passar por uma poça d’água, pois a Toyota afundou a ponto de ficar com praticamente duas rodas no ar. Neste momento percebi minha real vocação para fotógrafo jornalista, pois enquanto todos estavam preocupados com sua própria segurança eu só conseguia pensar em sair para fazer a foto.

Após cerca de hora e meia chegamos ao ponto onde deixaríamos o carro e seguiríamos a pé. Enquanto saboreamos um bom lanche a equipe local carregava as lhamas com todo o equipamento, pois levaríamos apenas uma mochila de ataque enquanto as cargueiras iriam no lombo dos animais. Nesse local vivem duas crianças que me chamaram a atenção, trata-se de Elias e Rebeca (na foto), que apesar do vestido improvisado trata-se um menino. Não resistimos ver o estado dessas crianças e preparamos um sanduíche para cada uma.

Barriga cheia e com muita vontade de caminhar, partimos em direção ao nosso acampamento por uma trilha simplesmente linda. Nos lados montanhas cobertas de uma vegetação seca e rasteira e a frente as imponentes montanhas geladas que pareciam nos atrair com sua magnitude. Ao final da tarde chegamos ao local do acampamento, onde passaríamos a próxima semana. Trata-se da margem de um belo lago e próximo de uma casa de alvenaria.

O local programado para o acampamento deveria ser mais próximo do glaciar, porém devido as previsões de mal tempo para os próximos dias, Carlos achou mais seguro estar perto da casa. Isto facilitou a logística para as refeições mas em contrapartida nos distanciou do glaciar. Após a montagem do acampamento fomos para a cozinha tomar um chá, de coca lógico, para ver se a respiração melhorava um pouco, pois ficavamos bastante ofegantes após qualquer movimento.

Durante a noite tivemos uma breve aula teórica sobre os principais nós que seriam utilizados durante o curso. Após a aula um saboroso jantar: sopa, arroz, carne e batata – sobremesa papaia e dá-lhe chá. E como o dia seguinte prometia bastante esforço o negócio era dormir cedo.

06-Set-99 – 1º dia – Aprendendo a utilizar o equipamento

Acordei 7:30h e dentro da barraca estava 3ºC, mal conseguia me vestir de tanto frio. Tomamos um bom café e calçamos as botas duplas. Terrível, mal conseguia me mover com a rigidez e o peso delas. Além das botas haviam ainda como peso extra na mochilas: os crampoms, piquetas e mais toda a indumentária para o frio que nos esperava no glaciar.

Como seria a rotina dos próximos dias fizemos a trilha que circula o lago e nos leva até o glaciar, que apesar de não ser tão longa, nos tomava cerca de duas horas, pois caminhar a 4.600 m com todo o peso extra não é como um passeio no parque. Chegando no glaciar tomamos as primeiras aulas de como calçar e andar com os crampoms. No início é muito difícil e muito comum enroscá-lo nas polainas e até mesmo cair. Tombos são muito perigosos, pois suas pontas são bem afiadas podendo causar ferimentos.

Após algum tempo todos já estavam mais familiarizados com os equipamentos e partimos para a segundo aprendizado: como encordar-se. Fizemos um série de exercícios e caminhadas sobre o glaciar onde cada pessoa tinha que estar atento a corda está esticada e sempre verificando se o companheiro está trilhando por locais seguros. Por volta de 15:30h encerramos os treinamentos e completamente exaustos retornamos para o acampamento. Após um período de descanso saboreamos um delicioso jantar e fomos dormir cerca de 20:30h.

07-Set-99 – 2º dia – Escalando uma parede de gelo

Durante a noite anterior Carlos teve que retornar para La Paz para uma reunião gerando um pequeno atraso em nossa saída, que diga-se de passagem muito bem utilizado para mais alguns momentos de descanso. A ordem do dia foi de escalada em parede. Começamos então a aprender a utilizar o piolet normal e o técnico, além dos grampos frontais dos crampoms para fixação nas paredes de gelo. Passamos o dia escalando pequenas paredes aprendendo a utilizar a corda, mosquetões e principalmente os parafusos de gelo. Este realmente me chamou a atenção pois achei incrível ver sua funcionalidade.

Tínhamos duas marcas distintas e a de melhor qualidade se destacava na hora de fixá-lo no gelo. Numa das paredes de exercício, Carlos fixou a corda no topo e tínhamos que fazer uma escalada com segurança, que se tornava bem difícil no final, pois a inclinação atingia 90º. Após várias tentativas já não tinha mais energia para fixar o piolet e crampoms, tornado o deslizamento inevitável.

A cada novo dia no glaciar atingíamos pontos mais altos. No dia de hoje chegamos aos 5.100 m e isto tornava ainda mais difícil o deslocamento sobre o gelo. Sempre andávamos em duas cordadas, uma de 4 e outra de 3 pessoas, cujos elementos revezavam as posições dentro das mesmas.
O dia foi bem longo e só chegamos de volta ao acampamento por volta de 19:30h, já utilizando as lanternas e muito cansados. Entrei na barraca, descansei por alguns minutos e já fomos chamados pelo Cláudio para o jantar, que apesar de estar delicioso não tinha muito apetite, influenciado pelos efeitos da altitude.

08-Set-99 – 3º dia – Técnicas de segurança

Hoje, o dia seria também diferente. Além da tradicional caminhada matinal até atingirmos o início do gaciar, tivemos um agravante, ela foi estendida em algumas centenas de metros e alguns graus de inclinação, pois o exercício seria feito numa posição superior no glaciar. Os exercícios a serem praticados durante o dia seriam os seguintes:

  1. Contenção de queda em glaciar:
    Consiste em simular uma queda no glaciar e através do correto posicionamento do corpo tentar freá-la com o uso do piolet. O exercício foi muito interessante apesar da subida de volta para a próxima queda ser extremamente cansativa
  2. Contenção de queda em greta:
    Este sem dúvida foi um dos melhores e mais interessantes exercícios do curso. Trata-se de resgatar um dos membros de uma cordada quando este cai em uma greta. Para isso tomamos uma cordada de três pessoas e uma delas se “jogava” numa greta e os demais através dos ensinamentos freavam sua queda e depois através de uma série de técnicas, entre elas a do “homem morto”, resgatavam a vítima. Um fato curioso neste exercício foi a escolha da Veridiana como a primeira vítima.

O dia em si não foi tão desgastante mas ao cair da tarde começamos a ter sombra no glaciar e isto baixava a temperatura para números negativos, tornando muito duro a permanência sem que se estivesse em atividade.

09-Set-99 – 4º dia – Subida ao pico Apacheta

Este dia é considerado como livre e as atividades ficam a cargo de cada um. Como uma sugestão do Carlos é oferecido uma trilha “leve” de aproximadamente 5 horas que levava até o pico Apacheta com 5.250m. Como base nas informações de que seria leve e o visual magnífico resolvi faze-la juntamente com o grupo. A única exceção foi a Veridiana que resolveu ficar descansando. Nas primeiras horas de caminhada o Cláudio, que não estava se sentindo muito bem, resolveu voltar e poupar energias para o dia seguinte que prometia ser bem desgastante.

A maior parte da trilha era sobre pedras soltas o que dificultava muito a caminhada. Eu senti bastante as dificuldade imposta pela altitude e mantive a posição de “lanterninha” do grupo o tempo todo. Porém, após algumas horas lutando contra as dificuldades consegui chegar ao pico e me senti recompensado pelo incrível visual. De lá de cima é possível avistar La Paz, o lago Titicaca, várias montanhas da região e o vulcão Sajama.

Retornamos cedo e chegamos no acampamento com sol, o que me motivou para um banho “checo”. Incrível, pois apesar do sol a água estava beirando o congelamento. Mais do nunca fomos dormir bem cedo, pois o dia seguinte prometia ser o mais desgastante de todos.

10-Set-99 – 5º dia – Picos Tarija e Pequeno Alpamayo

Conforme planejado e já esperado, acordamos 3:30h, tomamos café e rumamos para o glaciar. Fazia muito frio, 3ºC na barraca e -8ºC fora. A caminhada foi muito cansativa e ao amanhecer a temperatura chegou a -13ºC. Para agravar um pouco mais a situação, não notei que minha bota de gelo havia desamarrado e isto causou muitas dores na canela que dificultou minha locomoção no glaciar.

Numa mistura de fadiga e dor me “arrastava” glaciar acima tentando acompanhar o grupo que parecia se deslocar com mais facilidade. Isto porém não era tão verdade, conforme vim a saber mais tarde – a Veridiana se saiu muito bem na ascenção graças a uma técnica que desenvolveu para vencer o cansaço e a monotonia: pedia para o guia parar para descanso somente após 600 passos.

Neste dia haviam dois cumes para serem vencidos e a expectativa do Carlos é que apenas parte do grupo teria condições para fazer o segundo. Atingimos o primeiro, Tarija, ainda na parte da manhã e paramos para o lanche contemplando o belo visual daquela posição privilegiada. Carlos então convocou os acompanhantes para o próximo pico, o Pequeno Alpamayo. A Veridiana e eu resolvemos ficar enquanto os demais se preparavam para a próxima aventura. Eu sentia uma certa insatisfação por um lado, por estar deixando de fazer uma tentativa, mas por outro, me sentia bem por saber que estava no limite de minhas condições físicas e pela dor na canela. Ficamos cerca de três horas no pico aguardando o grupo atingir o Pequeno Alpamayo. Só fiquei conformado com a idéia de perder uma chance de fotografar outro pico quando o mal tempo tomou conta da montanha cobrindo completamente o Pequeno Alpamayo e como conseqüência o nosso grupo.

O retorno à La Paz

Acordamos cerca de 8h com uma sensação de dever cumprido e eu com algumas lembranças do dia anterior, a canela. Tomamos nosso café calmamente, arrumamos as mochilas, equipamos as lhamas e pé na trilha de volta ao carro. O dia, como todos, estava maravilhoso e fiz belas fotos do grupo e das belas paisagens que a região proporciona.

A grande surpresa foi ao chegar no carro e depararmos com algo inesperado: o carro não pegava. Pior que isso, foi tentar empurrar um carro de quase 3 toneladas acima dos 4.000 m de altitude. Nas primeiras tentativas, como não havia uma descida, tentamos no plano – quase morri de falta de ar. Após pensar um pouco, decidimos empurrá-lo morro acima e depois tentar faze-lo pegar no tranco na descida. Quando eu já estava na últimas energias finalmente pegou. Só não pude comemorar mais porque tinha que respirar para não morrer de falta de ar.

O guia Carlos

Toda atividade em montanha nos expõe a riscos que devem ser cuidadosamente calculados – um deles é a experiência do líder e integridade da empresa que está fornecendo o serviço. Existem muitas empresas que não cumprem os pré-requisitos de segurança para levar um grupo para uma montanha, portanto seja cauteloso ao escolher uma.

Segundo Carlos, existem muitas agências na Bolívia que mesmo não sendo membros da Associação de guias de montanhas da Bolívia montam pacotes para levar turistas menos experientes para as montanhas. Muitos deles são feitos em épocas onde as condições do tempo não são favoráveis para escalada ou o tempo de aclimatação não é respeitado, fazendo com que o grau de sucesso seja menor. Como referência para os interessados em fazer este curso recomendo bastante atenção nesses fatos e abaixo relaciono um resumo de currículo do Carlos:

Juan Carlos Escobar Aguilar
Nascido em La Paz em 1964
Diretor geral da agência de viagens ecológicas “Nuevos Horizontes”;
Presidente da Associação de guias de montanhas da Bolívia
Onze anos de experiência em escalada em rocha e gelo;
Principais picos e expedições:

1990 – Illampu – junto com Juan Villaroel
1992 – Condoriri e Pequeño Alpamayo (parede Sul) – posteriormente Cabeza del Condor parede sul – junto com Patric Sleifer
1993 – Expedição ao Jankohuma – junto a Beat Bauman
1995 – Expedição ao Huayna Potosi (via oeste) – junto com José Callisaya
1996 – Expedição científica ao vulcão Sajama – junto equipe científica da Universidade de Masachuset.
1997-1999 – Participação em diversas expedições e resgastes em alta montanha

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